terça-feira, 14 de julho de 2015

Entrevista

A convidada desta semana é

Maria Cleide Pereira


Maria Cleide da Silva Cardoso Pereira, nasceu em 17 de fevereiro de 1980, em Belém do Pará. Neta de poeta e filha de poetisa, a escritora iniciou sua produção literária aos 11 anos, dedicando seus primeiros versos à sua mãe. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Pará e cursou MBA em Gestão de Pessoas pela Faculdade Ideal e Estratego.

Em 1999, fez parte do grupo teatral Cacilda Becker, no qual atuou como atriz, produtora musical e autora de textos. Em 2000, iniciou o curso de letras, mesmo ano em que conheceu seu futuro marido, João, seu melhor amigo e colega de curso. Entre 2005 e 2006, fez parte do Programa Multicampiartes, da UFPA, ministrando oficinas de Literatura em vários municípios paraenses. Nesse mesmo ano, dedicou-se aos estudos do seu MBA. Em 2007, tornou-se instrutora do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial SENAC) em Belém. Ainda em 2007, começou a trabalhar no projeto"Educando para a Liberdade", atuando nas unidades penais do estado do Pará. Em 2010, em fevereiro, casou-se com João e, em novembro, nasceu seu primogênito, Elias, a grande inspiração de sua vida.  Em 2012, já em Castanhal, passou a trabalhar na rede municipal de ensino, além de integrar a equipe docente do SENAC-Castanhal. Atualmente, trabalha no SENAC e na Escola Municipal São João Bosco e cursa Especialização em Educação Profissional.

Perfil literário com suas obras completas:
Jardim de Pensamentos: cultivando sementes da alma
Versos que edificam a alma: a fé em poesia MCSCP
O universos simbólico da obra "O Saci":um estudo junguiao sobre a obra infantil de Monteiro Lobato
Seu recém lançado e-livro de poesias de amor:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5306993


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EspiritualMente - Como é a sua relação com a religião e a espiritualidade?

Maria CleideBem, religiosidade é diferente de espiritualidade, em meu pensamento. Religião é uma instituição fundada por pessoas e segue determinadas tradições, com seus dogmas e doutrinas. Prefiro o sentido mais puro da palavra, pois religião significa religar. Nesse sentido, de religação, há uma relação profunda com a palavra espiritualidade. A espiritualidade vai além de qualquer religião, eu a sinto como uma unidade entre tudo e todos, a unidade que emana de Deus, a unidade do Espírito Santo.


EspiritualMente - Como surgiu em sua vida o talento para a escrita? Que tipo de gênero você sente mais inspiração para escrever?

Maria CleideSurgiu bem cedo, desde pequenina. Meu avô materno, Josué, era poeta e costumava escrever e recitar poesias. Minha mãe, Águeda, lia poesias para mim e também escrevia sonetos. Eu acabei me apaixonando pelos versos. Na minha antiga Sala de Leitura, da Escola Estadual João Renato Franco, eu ficava a ler, várias vezes, A Arca de Noé, de Vinícius de Moraes. Eu amava a Sala de Leitura e isso me ajudou muito a desenvolver a escrita. Aos 11 anos, comecei a escrever os primeiros versos, todos dedicados à minha querida mãe. Eu gosto muito do gênero lírico e, em breve, lançarei um livro virtual com poesias lírico-amorosas.


EspiritualMente - Uma das temáticas presentes em seu trabalho literário são as questões sociais, a consciência política e cidadã. Como você vê este atual cenário político e social que o nosso país está enfrentando?

Maria CleideBem, as questões sociais sempre foram muito marcantes em minha vida, desde as escolas públicas onde estudei, os projetos sociais de que fiz parte até as instituições nas quais trabalho. Eu sempre desejei que todas as pessoas tivessem as mesmas oportunidades e que pudessem usufruir dos mesmos bens culturais, de forma que cada cidadão e cidadã viesse a se tornar o que tem vocação para ser. Eu entendo a educação como um ato político, mas não um ato político partidário. Já militei em partidos de esquerda, no passado. Mas o discurso da luta de classes, da relação opressor versus oprimido não era suficiente para todos os meus questionamentos. Fiquei decepcionada ao perceber que, na verdade, o que prejudica as pessoas é a luta pelo poder. É essa luta desenfreada pelo poder que fomenta a desunião, a desigualdade, a discriminação e o preconceito. Hoje, sou apartidária. Só tomo partido em uma coisa: a favor do meu povo, seja da minha cidade, do meu Estado, do meu país. O povo, muitas vezes, é esquecido e desrespeitado. O imposto que se paga para obter melhoria para todos acaba nos bolsos, meias e até cuecas de quem foi eleito(a) para defender o interesse do povo. A corrupção precisa ter fim. O famoso ditado "a ocasião faz o ladrão" precisa ser banido do nosso inconsciente. Para o senso comum, todos que estão no poder sempre vão roubar, não adianta. Isso precisa acabar! Outro detalhe: quem governa, governa para todos, não para um segmento. Assim como todos pagam impostos, todos merecem consideração e dignidade. O Brasil enfrenta, nesse momento, uma crise. Nos momentos de crise, a única saída é a cooperação, a colaboração. Mas o povo está dividido porque está insatisfeito com tantas mentiras. No entanto, quando se perceber que o que está em jogo é o futuro de um país (e não o de um partido político), cada brasileiro e cada brasileira, de forma consciente, ajudará a sua pátria a crescer e a se fortalecer. Conflitos violentos e manifestações de ódio não levam a lugar algum. Mas uma mobilização social que pede o fim da corrupção no mais amplo sentido, que propõe mudanças necessárias à legislação e que busca respeitar a diversidade compreendendo cada realidade é muito viável.


EspiritualMente - Por muito tempo, você foi professora de um projeto no sistema penitenciário. Que lição você adquiriu com essa experiência com os presidiários?

Maria CleideFoi uma experiência muito rica. Isso me fortaleceu imensamente e rendeu muitas lágrimas também. Vi muitas coisas, ouvi muitas coisas, aprendi muito convivendo com pessoas encarceradas. Eu trabalhei tanto com homens, quanto com mulheres. Também tive contato com a família dessas pessoas, uma vez que também atuei nas brinquedotecas, lugar onde os(as) internos(as) recebiam a visita de seus familiares. Era emocionante ver o reencontro entre mães, pais, irmãos, filhos(as). Eu desenvolvi, para esse momento, atividades voltadas às crianças. Assim, nasceu a contação de histórias por meio de fantoches. Criei a personagem Beijoca, que animava as visitas infantis. Sabe, aprendi que a liberdade tem grande valor; que o tempo que temos é valioso e não pode ser desperdiçado; que cada pessoa precisa de estímulo e de incentivo para fazer as escolhas adequadas; que a família é a base de tudo, que ela representa nossa fortaleza nos momentos de aflição e que Deus é a força maior, a luz que dispersa as trevas, o perdão que emana do arrependimento, a graça que se alcança por meio da fé, a liberdade verdadeira. Sempre que surge oportunidade, eu realizo trabalhos nas unidades penais. Acredito que a educação pode transformar para melhor a vida de todas as pessoas. A educação é a melhor forma de combater a violência e de conquistar novas oportunidades de ser feliz.


EspiritualMente - Você também teve experiência profissional com crianças. Prefere mais trabalhar com o público adulto ou com o infantil? Por quê?

Maria CleideGosto de trabalhar com todos os públicos, pois cada um me ensina algo necessário para o meu aperfeiçoamento humano. O público infantil requer paciência, cuidado e atenção. Aprendo a ver as coisas de forma diferente (preciso me reinventar algumas vezes!), sinto-me mais leve, gosto de experimentar coisas novas, de contar histórias e de ensinar antigas brincadeiras. É bem divertido, apesar de um tanto trabalhoso. As crianças têm muita energia e é preciso coordenar bem as atividades. Os adultos são mais reservados, ensinam-me a observar e a ser assertiva, a desenvolver diferentes formas de aprender e de compartilhar conhecimentos, a saber ouvir nas entrelinhas, a acolher cada feedback de forma positiva e construtiva, a compreender as diferenças e semelhanças entre as pessoas. É desafiador trabalhar com adultos, é uma experiência muito rica.


EspiritualMente - Como gestora de pessoas, como você analisa as relações humanas nos dias de hoje? A ampliação de redes sociais como por exemplo o Facebook, o Whatsapp, melhora o relacionamento entre as pessoas?

Maria CleideBem, as pessoas buscam se relacionar de várias formas e as redes sociais constituem uma dessas formas. Antigamente, as pessoas se correspondiam por cartas, mas era um pouco demorado. Essa forma de interação sempre existiu, mas a tecnologia a aperfeiçoou. No entanto, observo que as redes sociais oferecem inúmeras possibilidades de veicular informações que estão ligadas a valores e a sentimentos. A superexposição em tais redes afeta as pessoas justamente por isso: o fato de alguém excluir uma amizade, de tornar público um segredo, de expor os pensamentos e valores de alguém etc., faz com que certos sentimentos seja fomentados: a raiva, a vergonha, o ressentimento, a inveja etc. Pode-se dizer que o facebook ou o Whatsapp são uma espécie de espelho mental. É por essa razão que, hoje, muitas empresas, durante seus processos seletivos, costumam acessar os perfis dos(as) candidatos(as) a uma vaga. Cada perfil, de certa forma, revela aptidões, gostos, crenças, pensamentos e informações importantes de cada usuário(a). Mas apesar de certas vantagens que essas formas de comunicação trazem, há um grande perigo por trás dessas novas relações virtuais: há muitos perfis falsos, que são utilizados para fins ilícitos. São muitas as denúncias de tráfico de drogas, tráfico de pessoas, exploração sexual entre outras coisas que envolvem as redes sociais. Além disso, ainda há os casos nos quais os perfis falsos alimentam relações de adultério, pois são frequentes os divórcios por conta de descobertas feitas a partir do Whatsapp e Facebook. Entretanto, como estamos na Era da Comunicação, as redes sociais tendem a crescer e a se multiplicar. No entanto, o verdadeiro relacionamento humano requer o calor do toque, o reflexo do brilho de um olhar, a melodia de uma voz querida, o conforto do abraço amistoso, a quentura e sabor da lágrima que rola, o sorriso que não se pode traduzir com palavras. Isso, nenhuma rede social consegue transmitir. Esse, sim, é o verdadeiro relacionamento humano.


EspiritualMente - Você já teve variadas experiências na área artística: compositora, atriz, produtora musical, teatro de bonecos, poetisa, escritora etc. O que ainda falta você fazer? Tem algum projeto para o futuro?

Maria CleideTenho vontade de trabalhar como Gestora Cultural e ajudar alguns grupos artísticos a conseguirem aprovar seus projetos nos editais de incentivo à cultura. Para isso, há cerca de dois anos, tenho me preparado por meio de cursos e capacitações na área. Eu sei como é difícil viver da arte, por isso quero, por meio de meu trabalho, ajudar os(as) artistas a receberem o merecido reconhecimento. 


EspiritualMente - Como você vê atualmente a utilização da arte como instrumento de transformação para um mundo melhor?

Maria CleideA arte é transformadora, revolucionária. Ela desenvolve o talento humano e deixa, para a eternidade, um registro da alma de cada artista. Ela tem o poder de transformar o mundo, de torná-lo melhor, de fazer com que as pessoas passem a se relacionar de um modo diferente consigo mesmas, com a natureza e com o universo. Lembrei-me, agora, do livro "O Menino do Dedo Verde", de Maurice Druon. Nele, pude vislumbrar um lindo modelo de educação, que ensina a superar inúmeros conflitos. O protagonista, Tistu, acaba com uma guerra de muitos anos. É uma linda refência à condição humana em tempos de tantas guerras e conflitos pelo mundo. A arte vai além e cria o paraíso que tanto desejamos. 


EspiritualMente - Qual sua filosofia de vida?

Maria Cleide Faço da fé, do amor e esperança a minha filosofia de vida. A fé me faz alcançar o que desejo, orienta minhas energias para um único alvo e me faz resistir às dificuldades. O amor nutre a minha alma e me faz lutar pelo que vale à pena. Ele me alimenta de empatia e compaixão, para que eu possa compreender as outras pessoas e ajudá-las. A esperança me traz alento contra a ansiedade, move-me a realizar coisas enquanto aguardo o resultado de outras, faz-me ter a certeza de que tudo vai dar certo no final. Creio que todas as pessoas estão interligadas e procuro fazer o bem, pois quem prejudica o outro, acaba prejudicando a si mesmo. 


EspiritualMente - Que mensagem você deixa para os colaboradores, seguidores e visitantes do nosso projeto? 

Maria CleideQue lutem pelo que acreditam, que não deixem seus sonhos pela metade. Fazemos de nossa vida o que fazemos do nosso tempo. O tempo não nos espera e a vida precisa de sentido, por isso, a cada dia, devemos semear e cultivar boas sementes. Precisamos fazer tudo o que está ao nosso alcance para sermos pessoas melhores e para auxiliar nossos(as) companheiros(as) de jornada. Nossas atitudes podem ser decisivas não apenas para nós, mas também, para os que virão depois de nós. Assim, que tenhamos consciência de nossas escolhas, sabendo os resultados que elas trarão. Que o amor nos faça compreender a maravilhosa unidade inerente a cada ser. Abraços carinhosos e muito obrigada pela oportunidade!


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O projeto EspiritualMente agradece a Maria Cleide Pereira pela gentileza e simpatia em conceder esta tão bela e emocionante entrevista!


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