sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Pai do meu pai

Texto de Almir Paes no Blog EspiritualMente

No ciclo referencial da vida, os nossos pais cuidam da gente, nos orientam, dão a mão para nos ajudar a andar, nos dão aquela força para empreendermos a primeira pedalada na bicicleta...

Os pais são os nossos exemplos, nossos herois, nossos espelhos resplandecentes. Devemos a eles não só a nossa manutenção material mas, sobretudo, à educação moral. Pais equilibrados, conscientes e compromissados tem tudo para terem filhos centrados e educados.

Quando os filhos crescem e já começam a ficar na chamada meia idade, os seus pais já estão envelhecidos. Agora, os papeis se invertem. São os filhos que cuidam dos pais, dão a mão, apoio, carinho, atenção...

Isso também aconteceu comigo. Quando papai passou dos 70 anos ainda estava muito lúcido, disposto e com aquela vontade de deslumbrar a vida. Trabalhou até os 77 anos. Era um Contador como poucos. Eu aproveitei essa fase para conviver mais com ele. Assistia com ele os seus programas de TV favoritos, até mesmo novelas que eu não gosto, mas ele gostava.

Nós adorávamos escrever. Foi ele quem instigou esse hábito em mim. Quando chegava perto do Natal, nós escrevíamos mais de 100 cartões personalizados, escritos de acordo com a personalidade de cada um. Papai vibrava, ficava orgulhoso quando recebia um elogio com relação à confecção dos cartões. Eu escrevia os cartões em prosa. Eram cartões plasticamente simples mas com o diferencial prosaico da escrita. Ficamos parceiros na confecção dos cartões e em muitas outras coisas. Papai adorava a minha companhia e eu a dele. Ele dizia que na sua idade era difícil compartilhar alguma coisa com alguém.

Texto de Almir Paes no Blog EspiritualMente
Os pais de Almir Paes

Depois de algum tempo, papai perdeu a lucidez. Isso foi acontecendo aos poucos, até chegar um tempo em que quase não mais me reconhecia. Ele me chamava de chefe, pois era eu quem monitorava seus remédios, dava seu banho, fazia sua barba, limpava seu cocô, colocava-o para dormir como se coloca uma criança para tal. Isso mesmo, papai virou criança! Aí, de filho, eu me tornei seu pai!

De vez em quando, raramente, ele lembrava de mim e me agradecia pelo trabalho que eu tinha com ele. Eu ia para outro lugar para não chorar na frente dele. Logo depois, ele me chamava de chefe novamente e me perguntava: - Chefe, o que nós vamos fazer hoje? Imagine a minha responsabilidade, virar pai do meu próprio pai!

Não foi fácil conviver com aquela pessoa, antes tão lúcida, agora fisicamente decadente, sem lucidez, quase sem energia vital. Papai era uma lâmpada que se apagava aos poucos.

Um dia, ele foi ao meu quarto às duas horas da manhã e me pediu que eu pegasse o seu paletó para ir trabalhar. Para dissuadi-lo de tal ideia, eu disse que no outro dia era feriado e ele não precisava ir trabalhar. Ele voltou para a cama e dormiu.

Confesso que esse processo me desgastou muito emocionalmente e fisicamente. Um dia, papai foi internado no Hospital Boa Viagem em Recife. Foi para a UTI duas vezes e depois voltou para casa, agora no hospital residência. Não era mais eu quem cuidava dele, eram os médicos e enfermeiros que adentravam a nossa casa para esse fim. Ele foi ficando cada vez mais pálido, mais cansado. Acho que ele sentiu minha falta, mas eu já estava esgotado em todos os aspectos. Nesse processo de hospital residência, ele só durou 02 meses. No dia 03 de fevereiro de 2003 - em um sábado às 6 horas - papai foi chamado para a pátria espiritual.

Assim terminou mais esse ciclo de vida material. Aquele homem que me orientou, pagou meus estudos, me ensinou a gostar de ler, me ensinou a ser gente, partiu para o outro lado da vida. Mesmo desgastado e cansado, tive a felicidade de conviver com ele até o fim dos seus dias. Neste final da sua vida material, fui o pai do meu próprio pai.

Não sei se essa nova geração terá esse mesmo compromisso e essa bênção de ser pai do seu próprio pai. Muitos deles preferem abandoná-los em abrigos de idosos e dão endereços inexistentes para não serem encontrados. Cada um faça a sua parte, de acordo com o seu grau evolutivo e sua sensibilidade.

Feliz Dia dos Pais para todos, encarnados e desencarnados!


Texto de Almir Paes no Blog EspiritualMente
Almir Paes
O Cronista da Alma


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