terça-feira, 25 de setembro de 2018

Entrevista com o escritor e orador espírita Wilson Garcia

Wilson Garcia no Blog EspiritualMente
Wilson Garcia

Jornalista, escritor e orador espírita, Wilson Garcia é natural de São João Nepomuceno/MG. É casado, tem 04 filhos e residiu por 35 anos em São Paulo/SP. Desde 2004 mora em Recife/PE. 

É autor de vários livros, dentre eles:

Livros de Wilson Garcia
Alguns livros de Wilson Garcia


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EspiritualMente - Como o senhor conheceu o Espiritismo? Qual a importância desta Doutrina em sua vida?

Wilson - Cada vez que me vejo diante dessa pergunta, sou levado a algumas reflexões diferentes. Por exemplo, dentre os inúmeros espíritas que conheço ou conheci, que alcançaram um grande respeito público pelo conhecimento sólido do Espiritismo, nenhum mostrou chegar à Doutrina de modo espontâneo ou por um só motivo. E há entre eles fatores comuns nessa rota em que seguiram em direção ao Espiritismo: ideia prévia dos princípios espíritas, facilidade de aceitação desses princípios, um dejá vu ou sentimento de já conhecer aquele conteúdo. Sem imaginar-me um dentre esses espíritas de destaque, me incluo entre eles quando se trata de conhecer o Espiritismo de modo espontâneo e quase casual, com plena aceitação dos seus princípios, uma quase alegria irrefreável de estar de posse desses conhecimentos novos e a disposição de empunhar a bandeira que ele nos coloca nas mãos. Tudo isso aconteceu aos 20 anos de idade, após adquirir e ler de imediato O Livro dos Espíritos. Mas isso não é tudo. Tive experiências negativas e positivas em relação à Doutrina desde os 10 anos de idade, nenhuma delas que pudesse deixar claro o que a Doutrina de fato é. De modo que, quando decidi adquirir a obra primeira de Kardec, sem mesmo ter noção de que era a principal, muito pelo desejo de conhecer as ideias, foi que descobri que a Doutrina era muito diferente e muito melhor, infinitamente melhor do que a apresentavam os que a ela, direta ou indiretamente, me remetiam. Dentre algumas experiências com fenômenos espíritas, devo citar uma, por dever de consciência: a que tive em atividades de mediunismo aos 19 anos, podendo observar fenômenos extraordinários fora do ambiente espírita e sequer desconfiar que iria estudá-los e compreendê-los apenas algum tempo depois, como ocorreu. Então, para mim, eles eram apenas fenômenos reais, dos quais não duvidei, mas também não saberia explicar. Hoje, vejo-os com o olhar moldado pelo Espiritismo e compreendo como é importante adquirir o conhecimento que liberta o espírito do meio cultural e das convenções humanas.


EspiritualMente - Que análise o senhor faz do trabalho e da postura da imprensa espírita brasileira na atualidade no que se refere a divulgação da Doutrina?

Wilson - Minhas relações com a comunicação jornalística tiveram início quando ainda tinha 14 anos de idade. Na ocasião, me empreguei na empresa gráfica que produzia o jornal semanal da cidade. Quando já espírita, fui naturalmente arrastado para esse lado e nele me estabeleci, mas - explique-se - sempre como colaborador e não por vínculo profissional. Desde então, vivenciei experiências com diversos jornais e revistas, seja auxiliando na sua dinamização, seja como fundador. Cito alguns: jornal Correio Fraterno do ABC, O Semeador, Dirigente Espírita, OpiniãoE. Dadas essas experiências, sempre olhei com boa expectativa a imprensa espírita, sempre muito pujante. Antes, constituída de verdadeiros abnegados, indivíduos devotados que supriam a falta muitas vezes do conhecimento técnico com uma abertura para melhoria. A revolução tecnológica do nosso tempo imprimiu mudanças profundas, ao mesmo tempo que ampliou ao infinito as possibilidades individuais de participação na comunicação social do Espiritismo. Hoje, qualquer um está livre para tornar público o seu pensamento, opiniões e informações sobre o Espiritismo, porém, o bom jornalismo permanece o mesmo e esse só é praticado por pessoas que possuam o mínimo de conhecimento técnico e seguro conhecimento doutrinário espírita. Em vista disso, vemos um amálgama de situações comunicativas e, infelizmente, em boa medida feita por pessoas com precário ou nenhum conhecimento doutrinário, reproduzindo conceitos ultrapassados como se fossem a voz do Espiritismo. Há uma precarização da comunicação espírita no domínio do senso comum, que nada serve nem ajuda à popularização do Espiritismo, antes, confunde. Por outro lado, vemos ainda bons espíritas realizando trabalho sério e bem feito através de jornais e revistas virtuais, bem como utilizando com boa técnica as possibilidades que o espaço da internet oferece.


EspiritualMente - Uma parcela do movimento espírita afirma que é necessário inovar na divulgação, retirar a Doutrina das instituições e levá-la a realidade do cotidiano, ou seja, falar mais o "idioma da sociedade". Alguns chegam a declarar que a Codificação Kardequiana precisa ser atualizada. Como o senhor analisa este conflito do segmento conservador com o segmento reformador do Espiritismo?

Wilson - A pergunta engloba duas questões distintas: a da comunicação e a da atualidade do Espiritismo. Quando olhamos hoje para o espaço público que é a internet, especialmente as redes sociais, vemos que ocorre aí uma espécie de diálogo social sobre o Espiritismo na linguagem atual, ou seja, naquela que é comum aos sujeitos em diálogo. Ocorre que esta tem como ponto de destaque a revelação da compreensão limitada da Doutrina por parte dos comunicantes, o que é sintomático e preocupante. É de uma evidência palmar que esses comunicantes são frequentadores em boa medida de algum Centro ou Associação Espírita, o que aumenta ainda mais a preocupação, pois revela que não encontram na instituição onde deveriam aprender a Doutrina um ensino de qualidade. Temos aí um problema de raiz, de difícil solução, pois os Centros Espíritas de alguma forma estão ligados à Federativa do Estado e estas, por sua vez, se ligam ao chamado Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira que, como se sabe, ditam as regras e orientam a cultura espírita brasileira. É certo que essas associações não tem o poder de impedir que grupos espíritas autônomos e indivíduos falem e comuniquem a Doutrina sob uma ótica mais consentânea com a filosofia espírita e, inclusive, se utilizem de técnicas e linguagens apropriadas à realidade atual, formando-se, assim, um contraponto à oficialidade, mas, convenhamos, isso é muito pouco se queremos enfrentar e mudar as coisas. Quanto à necessidade de atualização do conhecimento espírita, uma premissa de Kardec para o progresso da Doutrina e sua mantença, apenas aqueles que estão presos a um conservadorismo obtuso não aceitam e nem compreendem. Mas, claramente, navegam estes contra a realidade e trazem ao Espiritismo um prejuízo muito grande, pois entender que o conhecimento espírita depende única e exclusivamente da ação dos Espíritos Superiores e somente eles teriam poder para tal atualização é dispensar os humanos do seu dever e obrigação, transferindo tudo para outro plano. Onde haja estudos e pesquisas e onde as verdades se substituem constantemente por conta das novas descobertas, é onde o Espiritismo se situa e deve acompanhar. Os princípios básicos estão estabelecidos e não carecem de alteração, mas seu emprego e compreensão estão na dependência do progresso humano.


EspiritualMente - O senhor já escreveu três obras sobre o papel, o trabalho e a importância do Centro Espírita. Em um deles, conforme o título indica, é uma "Casa de Serviços e Cultura Espírita". A maioria dos dirigentes e trabalhadores espíritas tem noção dessa dimensão social e cultural dos Centros? Que principais aspectos o senhor destacaria em relação a cultura espírita produzida nas instituições?

Wilson - Relembrando Herculano Pires, diremos que se os Centros Espíritas compreendessem a importância do Espiritismo, este seria o movimento cultural da maior relevância para a humanidade, capaz de implantar uma verdadeira revolução cultural no mundo. A par de existirem dirigentes espíritas altamente preparados e centros muito bem dotados em relação ao ensino da Doutrina, de forma geral os centros carecem profundamente de consciência doutrinária para a realização de ensino e, especialmente, práticas baseadas no conhecimento racional segundo Kardec. Um misticismo forte e uma exploração ao estilo neopentecostal do nome de Jesus e sua transformação em bandeira de luta no campo do discurso religioso de tendência tradicional é o sinal evidente de uma consciência que não incorporou os fundamentos mais básicos do conhecimento espírita e, portanto, não encontra o sentido exato da renovação que o Espiritismo propõe.


EspiritualMente - O gênero literário espírita é um dos maiores do mercado editorial brasileiro. Como autor de vários livros, qual sua avaliação a respeito da atual literatura espírita? Existe mais quantidade ou qualidade?

Wilson - Sim, a quantidade de livros que se publicam hoje é infinitamente maior em relação a das décadas passadas, mas isso já era um prenúncio que apenas se confirmou. Uma vez que as teses espíritas invadiram o campo midiático e se transformaram em ingrediente para o cinema e a TV em sua busca desenfreada pela audiência, o interesse pela edição e comercialização dos livros espíritas cresceu e encontrou na popularização da Doutrina um amplo espaço para novos autores. A questão da qualidade da obra literária é uma preocupação geral e alcança, necessariamente, a produção espírita, com a diferença de que esta acrescenta um ingrediente a mais: a qualidade enquanto conteúdo coerente e fiel ao conhecimento espírita. Aí as coisas tomam outro rumo. No mundo capitalista, o objetivo primeiro é o dos resultados financeiros, ou seja, o editor disposto a produzir e comercializar o livro espírita não o faz com propósitos humanitários, mas com objetivo de lucro. Para estes, não importa se o conteúdo do livro guarda coerência com os preceitos doutrinários, nem que o autor seja um representante fiel da Doutrina Espírita. Importa que o público consuma o livro na medida do retorno financeiro com o máximo lucro. Desta realidade, nem mesmo os editores espíritas conseguem fugir completamente, uma vez que são afetados de forma direta pelas leis do mercado. Então, o livro, antes produzido e publicado em menor escala, com menor índice de problema doutrinário, hoje encontra amplo espaço mercadológico e menor preocupação com o conteúdo espírita coerente. Colocado no fim dessa cadeia, o leitor em geral se vê como um consumidor convencido de que ler é importante, mas sem o empenho da consciência crítica e da necessária condição de avaliar o conteúdo em relação à coerência doutrinária, para o que não foi preparado. Temos, assim, esse quadro dominante, infelizmente.


EspiritualMente - Por muitos anos, o senhor fez parte da Associação de Divulgadores do Espiritismo de Pernambuco (ADE-PE), sendo o apresentador do Programa Realidade Paralela na Rádio Folha de Pernambuco, uma das mais importantes emissoras do Estado. Recentemente, o programa saiu do ar após mais de 10 anos de exibição. Qual sua opinião sobre essa perda de um espaço tão importante de divulgação espírita?

Wilson - Infelizmente, a ADE-PE, a exemplo de outras ADE's pelo Brasil, não logrou preparar uma equipe capaz de dar prosseguimento as suas iniciativas no campo da comunicação espírita. Ficamos centrados nos afazeres imediatos e descuidamos da estrutura e do quadro associativo. Também não conseguimos sensibilizar os espíritas portadores de conhecimento técnico na área da comunicação, fator que sempre se mostrou importante às práticas comunicativas midiáticas porque, assim como outras atividades, a boa comunicação não depende apenas de boa vontade por ser uma especialidade com suas técnicas e características próprias. Em geral, os espíritas munidos somente de boa vontade tem muitas dificuldades em compreender que, uma associação especializada como as ADE's, para se tornar duradoura e eficiente, precisa contar com uma parte de colaboradores com conhecimentos técnicos do assunto. Some-se a isso aquilo que já foi bem exposto em outras oportunidades, ou seja, a comunicação midiática tem seus custos e a obra cultural não costuma sensibilizar os espíritas de condições financeiras privilegiadas à prática da caridade com seu apoio, pois a caridade que compreendem é apenas aquela que mata a fome de um dia. Herculano Pires dizia que esta é que é compreendida como capaz de dar em troca um pedaço do céu. Poucos sabem que a boa comunicação contribui para o desenvolvimento da consciência crítica. Quanto ao Programa Realidade Paralela, infelizmente, estava inserido em todo esse contexto.


EspiritualMente - Em meio a tantas crises, escândalos e crescimento da violência, quais suas perspectivas sobre a atualidade e o futuro do Brasil? Estamos no rumo certo?

Wilson - Neste aspecto, Kardec é atualíssimo: qualquer que seja a transformação social que se pretenda, ela só se dará, efetivamente, com a mudança do ser humano. Continuamos à espera do homem moral, em seu amplo sentido, para aperfeiçoar e implantar as novas e duradouras instituições sociais, que precisam ser justas. Enquanto isso, ninguém pode fugir do seu dever social, da responsabilidade de ajudar na transformação do mundo a partir da transformação de si. Muitos espíritas se encantam com a notícia vinda do mundo espiritual dando contam de que muitos espíritos atrasados se encontram reencarnados. E creem piamente que eles são os maiores responsáveis pelo quadro de violência, física e moral, que vivemos. Além disso, acreditam também que eles estão recebendo sua última oportunidade. Isso lhes basta para debitar a outrem a calamitosa situação social do planeta. Contudo, a verdade é que a humanidade, de forma geral, carece de transformação individual e coletiva, para se colocar em condições de erguer um mundo de paz e prosperidade. A par disso, não podemos ser pessimistas e nem deixar de ter convicção nos destinos da humanidade e, particularmente, do nosso país. Os princípios espíritas nos ensinam o otimismo, dano-nos suficiente material para acreditar que caminhamos para o progresso e não para o caos.


EspiritualMente - Que mensagem você deixa para os visitantes, seguidores e colaboradores do nosso blog?

Wilson - Estamos no mundo como alunos em laboratório, ou seja, saímos da sala de aula para o local das experiências, onde aprendemos o valor da liberdade de optar, decidir e realizar. Viver diversas situações é fundamental para consolidar o aprendizado e aspirar a um futuro melhor. A liberdade é um bem maior. É ela que nos conduz à compreensão do valor da responsabilidade, daí porque a liberdade deve ser preservada sobre qualquer pensamento obscurantista e dominador. A responsabilidade nos conduz à liberdade, mas é a liberdade que nos faculta chegar à responsabilidade. Nenhum ser, sob opressão, será capaz de atingir os níveis de responsabilidade inerentes aos verdadeiros seres humanos. A justiça maior se assenta sobre o alicerce que a liberdade constitui. Os humanos erram porque possuem liberdade de escolha e acertam pela mesma razão. O Espiritismo é Doutrina da liberdade, de bem e do belo. Pensemos nisso!

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O Blog EspiritualMente agradece a Wilson Garcia pela gentileza em conceder esta instrutiva e interessante entrevista!

2 comentários:

  1. De fato a entrevista foi bastante clara e exprime a opinião do palestrante de forma a deixar antever as necessidades dos obreiros e dirigentes de casas espíritas relacionadas com a postura ética/moral associada ao conhecimento. Parabéns ao entrevistado e ao entrevistador.

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