quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Meus velhos Natais

Texto de Almir Paes no Blog EspiritualMente

Eu esperava o ano todo por esta data mágica, utópica e terna.

Um garoto franzino, de calças curtas e de óculos, mas com a cabeça cheia de todos os sonhos imagináveis.

No velho prédio da Avenida Recife, sentado na janela do meu quarto, sonhava de olhos abertos. Visualizava o campo de futebol, a velha quadra de barro batido, onde o Perimetral jogava e eu fazia meus gols.

Sonhava em pedir ao Papai Noel um jipe de plástico ou uma bola de futebol com a marca "Canarinha". Lembrava também da grande árvore de Natal natural na frente do prédio onde eu e meus amigos conversávamos sobre nossos futuros presentes.

Recordo que escrevi uma carta ao "bom velhinho" relatando que havia me comportando bem e passado de ano na escola mas, claro, sempre omitindo as traquinagens e a criatividade nas brincadeiras na qual eu era mestre.

Na noite de Natal, já tomado banho e vestido com a minha roupa nova passada no ferro, esperei Papai Noel até tarde, mas fui vencido pelo cansaço. Adormeci com todos os sonhos de uma criança feliz.

Acordei logo cedo e fui direto olhar em baixo da cama. Fiquei entusiasmado e agradecido ao bom velhinho pelo jipe que recebi. Fui logo mostrar aos amigos que também me mostraram seus presentes. Ficamos o dia todo nos divertindo.

Lembro-me que nos reunimos e demos um presente a uma criança pobre que morava perto da gente e um perfume a sua mãe. Seus olhos brilharam com uma intensidade nunca vista por nenhum de nós.

Era uma época mais digna, mais feliz e mais terna. Eram Natais fraternos e comunitários.

Hoje, quando acordo, vejo a realidade, a decadência dos sonhos, o desejo íntimo de só consumir, de comprar objetos. Aprecio a coreografia do mercantilismo, o Natal reduzido ao simples ato de TER e muita gente a sacralizar a lógica capitalista.

Vejo as emoções invertidas nos Shoppings Centers da vida. Vitórias se sucedem. Onde estão as derrotas? Ninguém pode perder, ninguém quer perder! A competição inflama o ego idolatrado. A pressa não permite mais ternuras.

Saio pelo mundo e pela vida carregando um misto de saudade e de ilusão. Sinto-me só neste "mundo moderno", com as relações sociais deterioradas e o Capitalismo sem freio.

Sinto saudade da minha infância, das brincadeiras saudáveis, das relações sociais mais dignas.

Onde estão meus velhos Natais?

Precisamos ter um mínimo de tempo para adornar fantasias e cultuar utopias.

Brindemos uma chance a ternura.

Tentemos, pelo menos, deixar vir a nós as crianças que nos habitam.



Almir Paes no Blog EspiritualMente
Almir Paes
O Cronista da Alma  


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