quarta-feira, 1 de maio de 2019

Irmãos excluídos


Texto de Almir Paes no Blog EspiritualMente

Certa noite, por volta das 23 horas, fui fechar a porta da rua da nossa casa e me deparei com uma pessoa catando o lixo que havíamos colocado lá fora.

Ele, ao ver-me, timidamente, deu-me "boa noite". Eu lhe respondi:
- Boa noite, meu irmão!

Ele me olhou assustado e disse:
- Moço, ninguém nunca me chamou de irmão! Algumas pessoas tem medo de mim, outras me ignoram como se eu nem existisse. O senhor me chamou de irmão!
- Somos todos filhos do mesmo Pai e irmão de Jesus - respondi. 

Em seguida, notei que ele queria me dizer algo e então lhe perguntei:
- Está precisando de alguma coisa?

Ele falou quase sussurrando, como se estivesse com vergonha, mas a necessidade falava por ele:
- Sim... estou com fome... sou morador de rua e quase não encontro mais comida no lixo, pois a concorrência é grande. As outras pessoas da rua levaram quase tudo que tinha para comer!

Ele me pediu também um lençol velho, pois ia passar a noite na rua e o tempo estava frio e chuvoso. Pedi para que ele me aguardasse. Fui em casa, peguei dois pães e fiz sanduíches de frango. Peguei também um pacote de bolacha, um lençol e levei tudo para ele. 

Ele ficou estupefato, anestesiado. Foi um misto de alegria e surpresa. Entrei para buscar um copo de café que havia esquecido e, quando voltei, ele estava na outra esquina, deglutindo o alimento com tamanha voracidade que até me emocionou e, ao mesmo tempo, me transtornou.

Cheguei perto dele e disse:
- Trouxe um cafezinho para você tomar!

Ele levantou a cabeça com os olhos cheios de lágrimas e me perguntou:
- O senhor é evangélico? Além de estar me ajudando, me dando atenção, não tem medo e nem repulsa de mim!
- Sim, sou evangélico - respondi. Leio e acredito no Evangelho de Jesus. Mas ainda estou muito distante de segui-lo. Mesmo assim, quando aparece uma oportunidade de ajudar o próximo, como essa que você está me proporcionando, eu tento por em prática um pouco das palavras do Mestre.

Ele baixou a cabeça e disse:
- Que Deus te abençoe!

Bastante acabrunhado, pois estava chorando, foi para outro lugar. Eu entendi a emoção dele e me retirei. Não nego a todos que também chorei. Nosso diálogo foi tão rápido que não deu tempo nem de perguntar o nome dele. O que importa foi o aprendizado que ele me proporcionou.

As reflexões desse episódio são diversas.

Por que existe tanta exclusão social?

Pobreza e riqueza são inerentes a esse estágio evolutivo que passamos. Depende do mérito e do demérito de cada um. Uns são mais previdentes para economizar e outros mais inteligentes para produzir, mas a miséria e a exclusão social são frutos dos sistemas erigidos pelo ser humano. Não estou falando aqui da acomodação, da indolência de alguns necessitados, mas de instituições humanas que impulsionam as diferenças, a exclusão e a indiferença.

Precisamos refletir sobre todos esses fatos concretos e realidades sociais da vida.

À propósito, hoje, 1º de maio - Dia do Trabalhador - reflitamos sobre o desemprego e a exclusão social, frutos, geralmente, da ganância e do egoísmo!


Almir Paes no Blog EspiritualMente
Almir Paes
O Cronista da Alma





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3 comentários:

  1. Almir,
    obrigado pela crônica.
    São gestos assim que preservam o equilíbrio do planeta necessário à vida, sobretudo na fase atual de tanto desamor.

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  2. No livro Doutrina Viva, psicografia de Carlos Baccelli, ditado pelo espírito Francisco Cândido Xavier, página 309, lição:Orientações Básicas, no Chico Xavier nos recomenda a fazer uma nova versão da Evangelho de Jesus. A versão pela vivência que segundo ele será "a mais preciosa versão". É disto que precisamos.

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  3. Excelente crônica!!!

    Penso que o Evangelho de Jesus, neste terceiro milênio que se inicia,
    será melhor compreendido e, portanto, melhor praticado.

    E, isto, pois, é consequência da evolução palingenésica e da exclusão
    dos endurecidos que haverão de ser deslocados para Mundos também
    de Deus, mas inferiores a este de nossa presente existencialidade.

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