quarta-feira, 26 de junho de 2019

Meus tempos de criança

Crônica de Almir Paes no Blog EspiritualMente

Fazendo algumas reflexões sobre a vida, lembrei-me da minha infância.

Parte dela passei na Vila Yolanda - até os 6 anos de idade - e o restante num conjunto habitacional de quatro prédios, localizado na Avenida Recife. Nós morávamos no primeiro prédio.

Logo quando lá cheguei, vindo da Vila Yolanda, deslumbrei-me com a beleza do lugar. A parte da frente, onde hoje é a Vila Cardeal e Silva, era um grande sítio, com árvores frutíferas, terrenos baldios, onde fazíamos nossos campos de peladas para jogarmos futebol. Atrás dos prédios, existia a pequena Vila Tamandaré. Havia também um areal maravilhoso, dois campos de futebol e uma quadra de futebol de salão.

Mais na frente, avistávamos um grande sítio, onde hoje é o Conjunto Habitacional Inês Andreaza. Do lado do posto do senhor Ricardo, havia um terreno muito arborizado e cheio de pequenos riachos, onde pegávamos camarão. Era o terreno da Radiobras.

Lembro-me que a tarde, atrás dos prédios, fazia uma sombra muito gostosa. Lá ficávamos sentados na calçada ou deitados na areia, que era bem branquinha e limpa. Avistávamos nesse local um céu azul cintilante e, à noite, um céu repleto de estrelas.

Nossas piscinas eram as límpidas águas dos rios. Nosso quintal era a rua, onde brincávamos de pião, bola de gude, academia, trinta e um alerta, empinar papagaio... Nós sabíamos conscientemente a extensão da nossa felicidade.

Lembro-me das nossas relações com os amigos. Eram fraternas, respeitosas e amistosas. Nossos pais tratavam nossos amigos como se fossem seus próprios filhos. Éramos tão crianças, tão inocentes, que ainda acreditávamos em Papai Noel. Tudo que fazíamos nos prédios era compartilhado por todos. Desavenças haviam, mas o respeito predominava acima delas.

Lembro-me dos vendedores e prestadores de serviços ambulantes. Lembro-me do leiteiro que deixava o leite em garrafas de 01 litro em frente as nossas portas e recolhia as garrafas vazias. Era a época do famoso leite Cilpe.

Lembro-me do verdureiro que vendia frutas e verduras numa grande carroça. As nossas relações com ele eram tão fraternas que marcávamos até jogos de futebol com o time da sua comunidade.

Lembro-me do pipoqueiro. Quando não tínhamos dinheiro para comprar um saquinho do produto, esperávamos ele terminar de fazer a pipoca para pedir o "torreiro" - aquelas pipocas que não estouravam completamente - que ele jogava fora.

Lembro-me do vendedor de pães que vinha dirigindo uma bicicleta acoplada a um dispositivo quadrado repleto do produto.

Lembro-me da nossa alimentação: carne fresca vinda do matadouro, peixe fresco, ovos de galinha da granja próxima da nossa casa, frutas e verduras naturais.

Lembro-me também do amolador de facas e tesouras, do vendedor de doce conhecido como japonês...

Depois desse relato, eu posso descrever resumidamente a infância de hoje, deixando que vocês estabeleçam um parâmetro com os tempos pretéritos.

As crianças de hoje estão, em média, 16 horas plugadas no computador, na TV, nos brinquedos eletrônicos, nos celulares. Não brincam na rua, não jogam futebol - a não ser em escolinhas pagas pelos pais. Elas também não tomam banho de rio - e nem podem, porque os rios estão todos poluídos. Enfim, não interagem com outras crianças, a não ser na escola. A alimentação delas é tão industrializada que está levando algumas crianças a terem colesterol alto e a ter obesidade mórbida. As coisas estão de um jeito que, em alguns lugares, quando uma criança quer comer uma fruta, se esconde no banheiro para não ser descoberta e chamada de babaca.

Não sou contra a linguagem coloquial proferida pelas novas gerações. Mas sou terminantemente contra ao flagrante processo de extinção de valores como o respeito, a solidariedade, o carinho e o amor. Expressões como "bom dia", "com licença", "me desculpe", "sua bênção", são atitudes de um passado bem longínquo. São frases rejeitadas, principalmente pelas novas gerações. Quem é muito educado é considerado maricas, homossexual.

A nova geração é especialista em manipular equipamentos eletrônicos - computadores, tablets, celulares -, mas são incapazes de pensar, sobretudo, o pensar crítico. Pregam a liberdade mas fazem e compram tudo o que a mídia manda. Geração que não pensa, não faz a sua história, apenas repete a história que outros já fizeram.

Portanto, precisamos viver plenamente em todos os tempos, mas não nos é proibido inquiri-los e analisá-los numa série histórica definida e de uma forma crítica.


Almir Paes no Blog EspiritualMente
Almir Paes
O Cronista da Alma




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Um comentário:

  1. Mais uma vez, um belo texto. Pleno de momentos que a criança de hoje não conhece e nem acredita que existiu. Tempo que prestigiávamos nossas Professoras e até concorríamos para surpreendê-las com uma flor, um presentinho, um carinho. Produto de nosso respeito e agradecimento. Da hora do recreio e suas diversas brincadeiras e interação com os coleguinhas, jóias que defendíamos com fidelidade e amor. Tempo que só nós acreditamos que existiu e existe em nossa já apagada memória . Palmas para vc amigo.

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